terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Globo exibe a partir de hoje a minissérie "Dercy de Verdade"

Soam os três sinais. A cortina se abre e Dercy Gonçalves (1907 – 2008) sobe ao palco. Sem roteiro, sem texto decorado, sem direção. Assim costumava trabalhar, não aceitava que lhe dissessem como fazer aquilo que ela parecia ter nascido sabendo. E com improviso, liberdade, irreverência e bom humor, a comediante conquistou uma plateia fiel.

Na vida pessoal, Dolores Gonçalves Costa, seu nome de batismo, mantinha a mesma natureza independente e, muitas vezes, até agressiva. Um hábito que desenvolveu para se defender da vida. Marcada pelo abandono da mãe ainda na infância; os maus tratos do pai, e a hostilidade da vizinhança em Santa Maria Madalena (RJ), sua terra natal, a jovem aprendeu a não levar desaforos para casa. E não pensou duas vezes quando surgiu a oportunidade de deixar tudo, e todos, para trás. Ela não era mulher de engolir sapos, nunca foi!

Mas, afinal, quem era Dercy de verdade?

Uma mulher ousada e abusada, mas também, tímida e recatada. Digna, porém, desbocada. Uma mulher que caiu e se levantou quantas vezes foram necessárias. Que amou, mas disse nunca ter sido apaixonada. Uma guerreira incansável que escondia das pessoas o seu romantismo e a sua fragilidade. A atriz que, em quase um século de trabalho, conquistou uma plateia fiel com apenas uma preocupação: o público. Uma mãe que encontrou em sua filha a mais bela relação que teve na vida.

É esse retrato que autora Maria Adelaide Amaral propõe revelar na minissérie Dercy de Verdade, que estreia hoje às 23h20, na Globo.

A malandrinha
Dercy, batizada Dolores Gonçalves Costa (Luiza Perissé/ Heloísa Périssé), nasceu em Santa Maria Madalena, região serrana do Rio de Janeiro. Ainda criança, sofreu ao ser abandonada pela mãe, que deixou a família ao descobrir a infidelidade do marido, Manuel (Walter Breda). A rejeição materna deixou marcas profundas em Dolores/Dercy por toda a vida.

Irreverente, ousada e sonhadora, a menina cresceu e enfrentou o mundo com sua língua afiada. E aprendeu a se defender da provocação da família e da vizinhança, que não tolerava a maneira com a qual a garota se vestia, andava e falava.

Ainda jovem foi expulsa do coro feminino da igreja, apesar da belíssima voz. A justificativa: ela cantava mais alto do que as outras meninas, e também era sem modos; além de se pintar como uma “mulher da vida”. Dolores não entendeu o preconceito e contestou a decisão dizendo que era tão pura quanto Virgem Maria.

Fã de Theda Bara e Pola Negri, os sonhos ultrapassavam o oceano. E enquanto trabalhava no cinema da cidade como bilheteira, Dolores desejava ser estrela de Hollywood, apesar de não ter ideia de onde ficava.

Ela entendia que Madalena não era seu lugar. Dolores queria ir embora, mas não sabia como.

“Você devia ser artista”
Foi quando chegou à pequena cidade a companhia de teatro Maria de Castro. Pascoal (Fernando Eiras), um dos astros, era um galã que cantava e dançava tango. Para chamar sua atenção, Dolores cantou “A Malandrinha”, um hit de Freire Junior. E o elogio de Pascoal mudou a vida de Dolores para sempre: “Você devia ser artista!”, era o que a jovem precisava ouvir. Em dois tempos, arrumou as malas e decidiu partir com a companhia no dia seguinte.

A única pessoa que sabia dos planos de Dolores era Bita (Rosi Campos), sua irmã mais velha e fiel escudeira. A caçula estava determinada, não queria continuar em Madalena! Precisava ir para onde não a maltratassem tanto.

Pascoal mal acreditou quando a viu entrar no trem: “Você não disse que eu devia ser artista? Então...”. Os planos quase foram por água abaixo quando o policial interrompeu os dois, levando-os para a delegacia, onde deveriam esperar o pai da moça. Apesar das tentativas de Pascoal para explicar que mal se conheciam, a jovem insistia que eles haviam tido uma relação íntima. Diante dos fatos, Manuel consentiu a viagem. Mas avisou a Pascoal que ele teria que cumprir com suas obrigações, ou seja, casar com Dolores.

E foi no caminho do trem que Dolores encontrou o teatro - e fez dele seu refúgio. Monta cenário, abre cortina. Desmonta cenário, fecha cortina. Aplausos. E eles seguiam viajando. Não demorou muito para que Pascoal e Dolores ficassem noivos, mas, diferente da imagem que passava, ela queria casar virgem.

A primeira noite de intimidade do casal aconteceu logo após o matrimônio, mas foi um desastre e nunca mais voltou a acontecer. Eles acabaram vivendo uma grande parceria, como dois irmãos.

Os Pascoalinos
Depois que a companhia Maria de Castro se dissolveu, Dolores (Heloísa Périssé) e Pascoal formaram a dupla “Os Pascoalinos”, e passaram a se apresentar em circos e cinemas, cantando e dançando, quase sempre a troco de nada.

A vida mambembe dos dois não lhes garantia nem mesmo um prato de comida. Mas eles seguiram, entre altos e baixos, até que Pascoal foi diagnosticado com tuberculose. Parceira, Dolores foi para São Paulo atrás de trabalhos que assegurassem dinheiro para bancar o tratamento do marido.

Vaias
Dolores (Heloísa Périssé) decidiu mudar seu nome para Dercy, inspirada na então primeira-dama, Darcy Vargas. Com o apoio de Isabel de Oliveira (Paula Burlamaqui), foi para São Paulo onde faria sua primeira tentativa no teatro Boavista, um dos melhores da cidade. Mas as coisas não saíram como o esperado. Escalada para substituir Otília Amorim, estrela da época, Dercy ficou em pânico quando abriram as cortinas e não conseguiu cantar.

Foi vaiada e expulsa do teatro, sob ameaças de nunca mais trabalhar nos palcos paulistas. Sem saber para onde ir, e com a reputação manchada, seguiu o conselho de Isabel e foi atrás de dinheiro fácil num bordel de classe. Acontece que a jovem, aparentemente descolada, não sabia nem mesmo se já tinha perdido a virgindade.

E entre as quatro paredes de um quarto, na companhia de Valdemar (Cássio Gabus Mendes), um senhor para lá de distinto, começou a chorar e confidenciou sua história. O sujeito ficou tão comovido que pagou mesmo sem ter recebido pelo serviço, deixando também um dinheiro a mais: “Isso é para você ir para o Rio. Se você quer mesmo ser artista, lá é o seu lugar.

Nasce uma estrela
Dercy comunicou a Pascoal que não tinha mais condições de ficar em São Paulo, e que estava de partida para o Rio de Janeiro. Ele decidiu acompanhá-la e os dois seguiram para a Casa de Caboclo, que funcionava no que havia sobrado do Teatro São José, na Praça Tiradentes, uma espécie de teatro de variedades com esquetes e números musicais com os cantores da época.

Pascoal conhecia Duque (Júlio Levy), famoso dançarino de maxixe com sucesso na Europa, nos anos 10, e também empresário. Em consideração ao amigo, Duque conseguiu uma oportunidade para “Os Pascoalinos”, mas na primeira apresentação ficou claro que Pascoal já não tinha mais saúde para continuar. A solução foi levá-lo para Madalena, onde receberia os cuidados de Bita (Rosi Campos).

De volta ao teatro, uma grande chance caiu do céu para os braços da atriz. Durvalina Ferreira estava doente e Dercy foi escalada de última hora para substituí-la no espetáculo com Jararaca (Anderson Di Rizzi) e Ratinho (Hilton Castro), a prata da casa.

O que tinha tudo para ser uma apresentação normal, obviamente não foi. Afinal, tratava-se de Dercy Gonçalves, a rainha do improviso. A apresentação fora do roteiro agradou a plateia. No dia seguinte, seu nome estava em destaque na porta do teatro - e a cuspida já era considerada sua marca registrada.
Pascoal morreu um ano depois. E Valdemar (Cássio Gabus Mendes), que reencontrou Dercy no Rio de Janeiro durante uma apresentação, tornara-se mais que um fiel espectador da artista.

Dercy e seus amores

A atriz chegou a dizer que nunca se apaixonou: “Nunca ninguém me chamou de ‘meu amor’, de verdade, nem eu disse pra ninguém ‘eu te amo’, porque amor é lindo demais. Eu não vou jogar pérolas ao primeiro porco que passa!”
Mas ela amou, e muito...

Valdemar, um homem bom
Um amor que nasceu da compaixão. O encontro no bordel em São Paulo rendeu mais do que algum dinheiro para iniciar a vida artística no Rio de Janeiro. Valdemar mostrava-se cada vez mais presente e solidário. Ele percebeu que a atriz não estava bem e, após o diagnóstico de tuberculose, bancou o tratamento num sanatório.
Como gratidão, Dercy se entregou a Valdemar, mas a intimidade rendeu uma gravidez. Ele era casado, mas insistiu para que a gestação não fosse interrompida.

O maior amor de todos
E assim, no dia 24 de dezembro de 1934, nasceu Decimar (Samara Felippo). Este acontecimento mudaria o destino de Dercy para sempre. “Eu não entendia nada de criança, mas aquela menina ia mudar minha vida”, declarou a artista.

Ela era uma mulher íntegra, logo, o fato de Valdemar ser casado a impedia de dar continuidade àquela história. Afinal, os planos da mãe incluíam uma educação decente e, principalmente, um pai com quem Decimar pudesse entrar de braços dados na igreja um dia.

Valdemar, por sua vez, era um homem bom e enquanto esteve vivo cuidou para que mãe e filha não ficassem desamparadas financeiramente. Até que ficou doente, o que obrigou Dercy a correr atrás de dinheiro para sustentar a menina.

Como mãe, Dercy (Heloésa Périssé/Fafy Siqueira) se empenhou para oferecer o melhor para Decimar. Não queria que a filha passasse pelas mesmas coisas que ela tinha vivido. Então, prometeu a si mesma que nunca a deixaria ser humilhada ou pisada por ninguém.

Decimar cresceu no Rio de Janeiro com uma vida digna de princesa. Dercy queria que ela fosse igual às outras meninas e contratou uma governanta francesa para lhe ensinar boas maneiras. A garota também recebia instruções de como se comportar com os rapazes - não podia pegar nas mãos ou beijar em público. Afinal, qualquer deslize era motivo para comentários negativos da vizinhança, que já não via Dercy com bons olhos.

Decimar acabou sendo aquilo que a mãe almejou para ela: uma mulher recatada, respeitada, com uma imagem impecável.

Respeitável público, com vocês Vito Tadei
Foi em uma apresentação circense que ela conheceu Vito Tadei (Ricardo Tozzi), acrobata e mulherengo. Dercy (Heloísa Périssé) terminou com Valdemar e se casou com o artista de circo. O casal teve uma vida de altos e muitos baixos. Vito provocava em Dercy ciúmes e desconfianças. “O ciúme e o ódio eram tantos, que até aprendi a nadar.”, disse a atriz sobre o dia em que foi atrás do namorado e de uma suposta amante dentro do mar. Envergonhada, jurou que nunca mais daria vexame nem se apaixonaria outra vez. Logo depois, o artista recebeu uma proposta para se apresentar na Europa e queria que ela o acompanhasse, mas sem Decimar. Ainda que fosse louca por ele, deixar a filha estava fora de cogitação. Eles se separaram sob juras de amor.

Augusto e Dercy, uma dupla do balacobaco
Foi então que apareceu Augusto Duarte (Tuca Andrada), um jornalista que conhecia como ninguém os bastidores e negócios do Teatro de Revista. Juntaram o útil ao agradável: ela era uma mina de ouro, ele tinha visão empresarial. E se casaram. Apesar da fama de mulherengo, Augusto dava uma aparência de respeitabilidade ao domicílio do casal. Finalmente, sua filha teria uma família igual às outras, mesmo que fosse só de fachada! Mas não durou muito. Quando flagrou o marido com Olimpia (Mayana Neiva), Dercy (Heloisa Perissé) decidiu que não levaria mais aquele casamento adiante, e pediu divórcio. Estava cansada das constantes brigas por infidelidade no amor e nas finanças.

Homero Kossak, mais que um amigo
Bonito, culto, educado, elegante. Homero Kossak (Armando Babaioff) foi o responsável por sugerir terapia à Dercy (Fafy Siqueira). Nessa relação, ele era o amigo apaixonado por outra moça. Ela suspirava em segredo pelo amor do rapaz. Porém, Dercy sublimou essa paixão, aceitou ser madrinha do casal e resolveu tentar a psicanálise. Os dois foram grandes amigos por toda a vida.

Nem Freud explica...
Dercy (Fafy Siqueira) acabou fazendo terapia por nove anos, o que, segundo ela mesma, ajudou bastante no seu trabalho na TV. Mas antes de levar a psicanálise a sério, a artista se apaixonou por um de seus terapeutas, Dr. Simão (Daniel Boaventura). Ela não poupou artimanhas para conquistá-lo, sendo sempre mal sucedida.

A Praça Tiradentes
Dercy Gonçalves (Heloisa Perissé) começou a carreira na década de 30, com acontecimentos que fizeram o Rio de Janeiro fervilhar. A construção do Cristo Redentor; o samba feito na caixa de fósforos na mesa do Café Nice; e o Teatro de Revista, que saía da coxia para os palcos, só para citar alguns. E foi neste último que a comediante encontrou seu espaço. Com cerca de oito teatros - Teatro Recreio, Carlos Gomes, João Caetano, São José, Íris, Maison, Paris e Ideal - a Praça Tiradentes era o lugar mais importante do Brasil, na opinião da atriz.

Os espetáculos populares satirizavam os costumes daquele tempo, e acabaram por revelar grandes nomes como Chico Anysio, Oscarito, Luz Del Fuego, Araci de Almeida, Carmen Miranda e Araci Cortes.

Só para começo de conversa, artista nem era considerado um profissional. Dercy estava, portanto, à margem da aceitação social. Mas foi com muita coragem, jogo de cintura e carisma que a jovem se consagrou como uma das maiores atrizes de seu tempo.

Durante anos Dercy foi estrela dos espetáculos de Walter Pinto (Eduardo Galvão), o maior produtor de Teatro de Revista do país. E apesar das dificuldades para a época, a comediante estampava todos os cartazes das peças. Até que o empresário resolveu investir em atrações estrangeiras, o que fez a comediante perder o espaço.

Sucesso na telinha
Amigo e parceiro de trabalho, Chico Anysio (Nizo Netto) apresentou Dercy Gonçalves (Fafy Siqueira) a Carlos Manga (Danton Mello), diretor da TV Excelsior, que a convidou para um programa na TV. Ela não cogitava a ideia de se apresentar sem público, precisava do calor da plateia. Como contraproposta, Manga lhe prometeu um teatro lotado. Logo depois a atriz estrelava “Vovô Deville” e “Dercy Beaucoup”, com a liberdade que queria.

O sucesso era tanto que não demorou até que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni (Bruno Boni de Oliveira), lhe fizesse outra proposta. Ele queria Dercy na TV Rio. A atriz queria escapar de São Paulo para não ver Homero e sua noiva, Ana Luisa (Bruna Spínola), o tempo inteiro. E aceitou.

Clô Prado (Drica Moraes), socialite e amiga da atriz, era contra esta decisão. Carlos Manga também ficou desolado. Mas ao perceber que a TV Rio ia de mal a pior, Dercy voltou atrás.

De volta à Excelsior, Manga surgiu com uma ideia aparentemente louca, mas genial, para escapar da censura: Dercy iria apresentar programação infantil. O que parecia piada, na verdade era muito sério! E Dercy bem que tentou, até tirarem seu programa do ar.

Os tempos mudaram e Boni fez uma nova proposta para a atriz, que topou na hora. Pouco depois estreava na TV Globo “Dercy De Verdade”, um programa de variedades.


Dercy de Verdade tem autoria de Maria Adelaide Amaral e direção geral e de núcleo de Jorge Fernando.

O Plano Comercial disponibiliza duas cotas de patrocínio nacional no valor de R$ 1.150.000,00 cada. São 24 inserções, incluindo dois comerciais de 30 segundos.


Dercy de Verdade estreia dia 10 de janeiro, às 23h20.
Vai ao ar de 10 a 13 de janeiro, após Big Brother Brasil 12.
Minissérie exibida em alta definição (HD) e classificação indicativa: 16 anos.


Fonte: Diretoria de Comunicação Transmídia - CGCOM




blog comments powered by Disqus