segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quatro anos de TV Digital: em apenas 8,6% dos municípios e conteúdo em HD não chega a 50%

Este levantamento foi idealizado por Gregori Pavan
e contou com a colaboração de Ricardo Souza e Luigi C. Filho.
Leia ao final o artigo de Thássius Veloso

No último dia 2, a TV Digital completou quatro anos desde a sua primeira transmissão a partir de São Paulo. Mas provavelmente você não se deu conta, também não deve ter visto este fato em nenhum jornal, telejornal ou revista, e não houve nenhum pronunciamento do governo.

Isso reflete como está sendo lenta - e sem motivo para comemoração - a implantação deste sistema no País. Faltando cinco anos para o desligamento do sinal analógico, três estados brasileiros - Acre, Amapá e Roraima - sequer sabem o que é uma transmissão de TV em alta definição.

As dificuldades iniciais eram o preço dos equipamentos, a área de cobertura e conteúdo para ser consumido. Hoje, os equipamentos estão em quantidade no mercado e a preços mais acessíveis. Portanto, é de se estranhar a resistência das emissoras de televisão que produzem pouco ou quase nada e não se preocupam em expandir a abrangência do seu sinal.

O gráfico a seguir apresenta uma classificação que considera a quantidade de horas transmitidas por dez emissoras de televisão aberta em São Paulo, são elas: MTV, Record News, Rede Globo, Rede Record, Rede TV!, Rede Vida, SBT, Rede Bandeirantes, TV Cultura e TV Gazeta. Foi analisada a programação destas emissoras da zero hora do domingo, dia 04 de dezembro, à meia-noite de sábado, dia 10 de dezembro.

A Rede TV! – lançada em 1999, quinta emissora do país em audiência – é a líder em transmissão de conteúdo em alta definição. Das 168 horas que compõem uma semana, a Rede TV! transmitiu 163 horas e 10 minutos – sendo 150h50m de produção própria e 12h20m de terceiros. Isso corresponde a 97,12% ou uma média de 23 horas e 18 minutos todos os dias.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: A Tarde é Sua, Aconteceu, Belas na Rede, Bola na Rede, Campeonato Inglês de Futebol, Campeonato Italiano de Futebol, Companhia de Viagem, Dexter, Dr. Hollywood, É Notícia, Good News, Hebe, Leitura Dinâmica 1ª Ed., Leitura Dinâmica 2ª Ed., Manhã Maior, Mega Senha, Melhores Momentos UEFA Europa League, O Último Passageiro, Olhar Digital, Pânico na TV, Programa Amaury Jr, RedeTV Esporte, RedeTV News, Ritmo Brasil, SuperPop, Tema Quente, TV Fama, UFC Sem Limites e Vinho à Mesa.

A emissora transmite todas as suas chamadas e vinhetas em alta definição.

*A programação da Rede TV! no canal digital é, em vários momentos, diferente da transmissão analógica, nele a programação é reapresentada diversas vezes.

Em segundo lugar aparece a MTV Brasil com a transmissão de 139 horas – 96h próprias e 43h de terceiros - em HD na semana analisada. Uma média de 19h51m por dia ou o equivalente a 82,73%.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: Acesso, Adnet Ao Vivo, Clipes Acesso, Clipes Big Áudio, Clipes Comédia, Clipes Goo, Clipes Na Brasa, Clipes Sangue B, Comédia, Especial MTV, Extrato, Fudêncio, Furo, Goo, Grampo, Hard Times, Infortúnio, It, LUV, Mod, MTV Games, MTV Hits, MTV Sports, Na Brasa, PC NA TV, Quinta Categoria, Rockgol, Sangue B, Show MTV, Show Na Brasa e TOP 10.

A emissora não transmite suas chamadas e vinhetas em alta definição.

*Os clipes exibidos dentro dos programas foram considerados como produção própria.

O terceiro lugar é ocupado pela TV Gazeta (SP), que na semana verificada transmitiu 119 horas e 25 minutos de conteúdo próprio em alta definição. O correspondente a 71,08% ou 17h03m por dia.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: Delícias do Chef, Edição Extra, Feiras & Negócios, Gazeta Esportiva, Gazeta Imóveis, Gazeta Motors, Gazeta News, Gazeta Shopping, Hoje Tem, Jornal da Gazeta, Manhã Gazeta, Mesa Redonda, Mulheres, Programa Seguro, Super Esporte, Todo Seu e Você Bonita.

A emissora transmite suas chamadas e vinhetas em alta definição.

A Band ficou com a quarta posição transmitindo 113 horas e 45 minutos, dessas 91h05m próprias e 22h44m de produção de terceiros. O que corresponde a 67,70% do período ou média de 16h15m por dia.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: A Liga, Acredite se Quiser!, Agora é Tarde, Auto+, Band Clássicos, Band Esporte Clube, Band Kids, Bernie Mac - Um Tio da Pesada, Brasil Urgente, Campeonato Brasileiro, Canal Livre, Cinema na Madrugada, Claquete, CQC, Descolados, Dia Dia, Domingo no Cinema, Fórmula Truck, Futurama, Gol, o Grande Momento do Futebol, Jogo Aberto, Jornal da Band, Jornal da Noite, Julie e os Fantasmas, Liga dos Campeões da UEFA, Magazine da Liga UEFA, NCIS: Los Angeles, O Melhor da Liga UEFA, Polícia 24H, Power Rangers (Samurai), Primeiro Jornal, Projeto Fashion, Sessão Especial, Show Business, SP Acontece, Terceiro Tempo, Top Cine, Torneio Internacional de Futebol Feminino, V.I.P. Segurança Especial e VídeoNews.

A emissora transmite suas chamadas e vinhetas em alta definição.

Com 63,95% da programação em HD, a Rede Record aparece na quinta colocação com a transmissão de 77h02m de produções próprias e 30h25m de terceiros, chegando a um total de 107 horas e 27 minutos.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: A Ex, Balanço Geral, Bíblia em Foco, Câmera Record, Cine Aventura, Conexão IURD TV, CSI Investigação Criminal, CSI Miami, CSI Nova York, Domingo Espetacular, Dr. House, Esporte Fantástico, Fala Brasil, Hoje em Dia, Jornal da Record, Marcas da Vida, Monk, O Aprendiz, Rebelde, Record Notícias, Repórter Record, São Paulo no Ar, Show do Tom, Super Tela, The Love School, Todo Mundo Odeia o Chris e Vidas em Jogo.

A emissora exibe vinhetas e algumas chamadas em alta definição.

Em sexto lugar ficou a Rede Vida, com a transmissão de 60 horas e 50 minutos de produções próprias. Uma média de 8h41m por dia ou 36,21% do tempo.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: Escolhas da Vida, Frente a Frente, Hora de Brincar, JCTV, Jornal da Vida, Missa de Aparecida, Missa do Santuário da Vida, Motivação & Sucesso, O Pão Nosso, O Terço, Páginas Difíceis da Bíblia, Palavra do Bispo, Palavra do Cardeal, Prazer em Conhecê-lo, Quem ama, Educa!, REDEVIDA Apresenta, Relaxe e Viva Feliz, Rosário da Vida, Tribuna Independente e Vida Melhor.

A emissora exibe algumas vinhetas em alta definição.

A maior emissora do país em audiência e faturamento, a Rede Globo, aparece apenas em sétimo lugar com 32,27%. Na semana verificada, de um total de 168 horas, a Globo transmitiu apenas 54 horas e 13 minutos, sendo 31h52m de produção própria e outras 22h21m de terceiros. Média de 07h44m por dia.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: A Grande Família, A Mulher Invisível, A Vida da Gente, Amor & Sexo, Aquele Beijo, Auto Esporte, Bem Estar, Campeonato Brasileiro, Cinema Especial, Corujão, Destino Final: Palm Glade, Domingo Maior, Fina Estampa, Força Tarefa, Glee, Lie To Me, Macho Man, Malhação, Prison Break, Profissão Repórter, Sessão da Tarde, Sessão de Gala, Supercine, Tapas e Beijos, Tela Quente e Temperatura Máxima.

A emissora transmite uma ou outra chamada e vinheta em alta definição.

O oitavo lugar é da TV Cultura (SP) com a exibição de 38 horas e 50 minutos de produções próprias. A emissora exibiu 23,11% do período em HD, transmitindo em média 5h32m por dia.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: Cartão Verde, Clássicos, Cultura Retrô, Deu Paula na TV, Educação Financeira, Grandes Momentos do Esporte, Inglês com Música, Jornal da Cultura, Manos e Minas, Metrópolis, Móbile, Nossa Língua, Pé na Rua, Quintal da Cultura, Radiola, Reis da Rua, Roda Viva, Sr. Brasil, Viola, Minha Viola e Vitrine.

A emissora transmite suas vinhetas e algumas chamadas em alta definição.

O SBT - terceira maior emissora em audiência – aparece somente em nono lugar, com ínfimas 29 horas e 50 minutos transmitidas em HD. Apenas 17,75% das 168 horas ou média de 04h15m por dia foram em HD. Dessas, eram próprias 19h35m e produções de terceiros corresponderam a 10h15m.

Os programas exibidos pela emissora em HD são: A Praça é Nossa, Amor e Revolução, Aventura Selvagem, Chuck, Cine Belas Artes, De Frente Com Gabi, Domingo Legal, Esquadrão do Amor, Gossip Girl, Homens de Uma Certa Idade, Lances da Vida, Prêmio Líderes do Brasil, Programa Raul Gil, Tela de Sucessos, Tenha Estilo, Terminator e V - Visitantes.

A emissora não exibe chamadas, apenas algumas vinhetas em alta definição.

A emissora de Silvio Santos só não perdeu para a Record News, isso porque a emissora de notícias de Edir Macedo não transmite um segundo sequer de programação em alta definição, nem ao menos as reapresentações de programas e telejornais em HD da TV Record.

Observações: Os intervalos comerciais dentro do horário de exibição de um programa HD também foram considerados como HD. Não foi o objetivo classificar tipos de produção, seja ao vivo, gravado, inédito, reapresentação entre outros. Alguns programas, principalmente os telejornais, apresentam em alguns momentos imagens que não são em alta definição.

Ao calcular a média, observamos que a transmissão de conteúdo em alta definição na TV brasileira – considerando essas 10 principais emissoras – corresponde a apenas 49,08%. Se desconsiderarmos a que mais transmite e a que nada transmite, ainda teremos um valor que corresponde a menos de 50% de transmissão de conteúdo em HD.

Este levantamento foi apresentado à Rede Globo e ao SBT que foram convidadas a comentar o motivo de sua baixa produção de conteúdo em alta definição. Caso elas respondam, os comentários das duas serão anexados ao final do post.


A falta de investimento por parte de algumas emissoras se torna bem visível quando comparamos este levantamento ao de junho, podemos verificar que a Globo e o SBT não só não aumentaram a quantidade de horas transmitidas em alta definição, como conseguiram a façanha de reduzir ainda mais o pouco que transmitem.

Na semana analisada em junho deste ano, a Globo havia transmitido 56 horas e 30 minutos. Uma diferença negativa de 4,04%.

Já o SBT foi ainda pior, conseguiu transmitir 20,97% a menos que em junho, quando havia exibido 37 horas e 45 minutos em HD.

Quem se contrapõe a essas grandes emissoras é a – relativamente pequena - TV Gazeta (SP), que demorou a entrar na era da TV Digital, sua primeira transmissão em alta definição foi este ano, mas tem feito investimentos e em apenas seis meses apresentou um crescimento de 167,33%.


O gráfico acima dá uma ideia de como cada emissora tem investido para ter programação em alta definição.

A Record demorou quase dois anos para ter programação em HD, porém, de dois anos pra cá investiu muito, por isso essa disparidade de 8496%.

Já o SBT parece que se esqueceu da TV Digital e dos investimentos em tecnologia. O quase nada que transmitia há dois anos é o mesmo que transmite hoje.

A Globo está na “primeira marcha”, no devagar e sempre. Mas neste ritmo não vai ter nem 60% da programação em alta definição até 2016 quando o sinal analógico será desligado.


O Brasil tem uma população de 190.732.694 de pessoas, em 67.557.424 de domicílios espalhados pelos 5.565 municípios, aponta os dados do Censo 2010 do IBGE.

De acordo com as informações (set/2011) do Ministério das Comunicações, existem no país 351 emissoras de televisão e 6197 retransmissoras. Dessas apenas 39 emissoras já transmitem o sinal digital, ou 11% do total.

Os dados mais atualizados (out/2011) da Agência Nacional de Telecomunicações mostram que:

- 480 dos 5.565 tem acesso à TV Digital.

Ou seja, – 4 anos depois – apenas 8,62% dos municípios.

- 87.712.775 das 190.732.694 de pessoas estão dentro da área de cobertura do sinal digital.

Ou seja, 45,99% da população.

- 107 das 6548 emissoras e retransmissoras transmitem em alta definição.

Ou seja, 1,63% da “malha” televisiva.


A verdade em alta definição
colaboração especial de Thássius Veloso

Quando da chegada da televisão digital no Brasil, em 2007, depois de muita discussão até que se decidisse por um padrão novo e único para este país tropical, seu grande chamariz, sem sombra de dúvida, foi a qualidade da imagem. 1080 linhas de resolução deixam as pessoas mais reais, com possibilidade para o espectador de apreciar as belezas e perceber os erros de pele, de maquiagem etc dos apresentadores.

Derivado do padrão nipônico de televisão, a nossa SBTVD foi feita “in house”, com direito a umas adaptações. O sinal 1-Seg, por exemplo, possibilita a mobilidade, uma vez que se destina a telefones celulares. E também tem a superalmejada interatividade, que em tese permite que o telespectador participe dos programas e interaja com os apresentadores.

Tudo muito bonito.

Para entretenimento, o tal do Full HD propicia um mundo novo em termos de qualidade de imagem. Tudo é mais nítido, mais claro, mais belo. Para dar suporte à alta definição, uma indústria inteira teve que se adaptar. Câmeras renovadas, técnicas diferenciadas para preparar os atores, e por aí vai.

Também no jornalismo o Full HD marca a sua presença. Lembro de quando a Bandeirantes iniciou as transmissões do Jornal da Band, ao vivo de São Paulo, com altíssima definição. Até a abertura mudou: “Está no ar o Jornal da Band em alta definição” (vídeo aqui), anunciava a voz-padrão da emissora. Motivo de orgulho transmitir em HD. Só que a tecnologia não se faz tão necessária quando estamos falando de jornalismo.

Jornalismo se justifica como a busca pela “verdade” – coloco verdade entre aspas porque ela não existe, mas existem fatos e a construção de uma narrativa devidamente apurada. Não importa se ela está em baixa ou alta definição. Se foi gravada pelas poderosas lentes de uma câmera de estúdio, daquelas que custam milhares de dólares, ou por um celular de telespectador que flagrou uma cena, sacou o aparelho e gravou com o máximo da pouca resolução possível naquele momento.

Só que já se passaram quatro anos desde que a tevê digital chegou por aqui. Passou da hora das grandes emissoras adotarem a alta definição pelo menos nos estúdios ultramodernos que passam por reformas de tempos em tempos. Nesse cenário, é ainda mais alarmante perceber que a TV Globo, a líder de audiência e sinônimo de jornalismo de boa qualidade, não apostou no Full HD durante seus telejornais. Nas cidades em que atua como emissora local, tanto os telejornais locais (os Praça TV – SPTV, RJTV, MGTV – ou Bom Dia Praça – Bom Dia Rio, Bom Dia São Paulo, Bom Dia Paraná) como os de rede deixam a desejar.

Nos Estados Unidos, o sinal analógico de televisão foi desligado em meados de 2009. Houve preparação de quase dez anos, com direito a prorrogações, para que os espectadores daquele país estivessem aptos a desfrutar a nova televisão. O Good Morning America, um dos programas jornalísticos mais notórios das manhãs americanas, adota a letter box. Os âncoras, todos de mais idade, têm de aparecer com rugas em evidência, bem como suas expressões faciais. Já as reportagens aparecem ora em Full HD, ora em SD. No último caso, a emissora ABC insere nas laterais das imagens a marca do programa, a fim de preservar a proporção da imagem capturada em 4:3 na transmissão digital, que prevê a mesma proporção do cinema (o widescreen com aspecto de 16:9).

Enquanto as demais emissoras apostam no Full HD em seus estúdios, a Globo está distante dessa realidade. Curioso porque o telespectador com aparelho apto a assistir em alta definição acabou se acostumando a assistir a Novela 1 em HD, o Praça TV em SD, seguido da Novela 2 novamente em HD. Então entra no ar o esperado Jornal Nacional, novamente em SD, sucedido pela Novela das Nove em 1080.

Não existe a necessidade de substituir todas as câmeras utilizadas pelo departamento de jornalismo somente para colocar um telejornal totalmente em HD no ar. Isso acontece com o tempo. A área artística e de entretenimento tem mais urgência nesse tipo de recurso. Porém, quatro anos depois, era de se esperar que pelo menos os estúdios de jornalismo recebessem o Full HD – o que não acontece na Globo.

Como eu dizia anteriormente, a “verdade” que o jornalismo almeja não depende de alta qualidade de imagem para ser levada ao público. Por outro lado, emissoras de televisão são um negócio, e precisam se adequar ao que o público consumidor (o telespectador) deseja. A transmissão em Full HD deve ao menos começar, nem que seja apenas no estúdio.

A televisão digital está aí, esperando para deslanchar. As set-top boxes e os conversores baratearam com o tempo, embora não tanto quanto os consumidores gostariam. Se sua parte, as emissoras também abraçam as tecnologias do SBTVD, com morosidade inerente a um processo custoso como esse. Falta o jornalismo, de alguma forma, mostrar que é interessante para o espectador migrar do sinal analógico para o digital.


Repercussão:
Gemind: Estado da TV digital no Brasil quatro anos depois de lançada
Blog do Mauricio Stycer: Estudo mostra a Globo em sétimo lugar em conteúdo em HD
AdNews: RedeTV! lidera transmissão HD no Brasil
Tecnoblog: Televisão digital brasileira deixa muito a desejar
Cena Aberta: TV digital continua sendo um fiasco no Brasil?




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