segunda-feira, 21 de junho de 2010

"Cala boca Galvão", um desabafo que faz a Rede Globo passar vergonha

A que custo alguém é sucesso? Alguém é sucesso ou é feito, levado ao sucesso? O que exatamente define o sucesso?

Galvão Bueno, por exemplo, é sucesso ou é fruto de uma imposição?

Você - cidadão, telespectador – assiste a um evento (esportivo) com a narração de Galvão Bueno porque gosta ou porque não tem escolha?

Dos eventos esportivos que você gosta, ou dos que conhece, quantos são transmitidos na televisão por outras emissoras que NÃO seja a Rede Globo?

Desde o dia 10 de junho, antes mesmo de começar de fato a Copa do Mundo da África do Sul, a expressão “GALA BOCA GALVAO” está entre as mais citadas do Twitter. Na verdade, praticamente não sai do primeiro lugar.

Estima-se que o Twitter tenha 105 milhões de usuários cadastrados, desses cerca de 12 milhões sejam brasileiros, entretanto sabe-se que é um número bem menor do que isso usa ativamente essa rede.

Ninguém sabe precisar ao certo quem começou, mas o fato é que o “Cala boca, Galvão” se espalhou – em clima de brincadeira, sim, mas com uma mensagem clara e despretensiosa.

A expressão, que remete a uma antiga frase - “Cala boca, Magda” - de um programa humorístico (Sai de Baixo) da própria TV Globo, foi aceita e reproduzida pelos internautas como se virasse uma espécie de abaixo-assinado, um desabafo. O termo ficou tão evidente que passou a ancorar várias brincadeiras, algumas até de muito mau gosto, mas que deram ainda mais visibilidade à expressão.

Aparentemente intrínseco, porém verdadeiro, o desabafo [ou agora em proporções de “chacota”] saiu do campo virtual e tomou proporções reais.

Causou dor de cabeça à direção da TV Globo, que no primeiro momento decidiu por pura soberba ignorar os acontecimentos achando que esses sumiriam da mesma forma que surgiram. Mas não é isso o que tem acontecido, o fato chegou a ser noticiado pelo jornal norte-americano The New York Times e pelo espanhol El País.

Em uma atitude de desespero e sem saída, a TV Globo chamou pra si a situação imaginando que assim a controlaria. Através do diretor da Central Globo de Comunicação, a emissora desmentiu a veracidade da situação e rechaçou classificando tudo como uma “brincadeira”.

“O Twitter fala com milhares, o Galvão com milhões.”, disse Luis Erlanger.

Porém esses “apenas milhares” continuavam incomodando a emissora, que partiu para o tudo ou nada. Se o Twitter fala com poucos, mas está mostrando seu poder e incomodando, isso pode sair dali e chegar aos outros que não usam o Twitter, então a emissora tentou descaracterizar a situação e desqualificar o significado do termo.

Na terça-feira, dia 15, a TV Globo convenceu (forçou ou deu como única saída) o narrador Galvão Bueno a falar sobre a situação e tratar tudo como uma grande brincadeira:

Qualquer um nota o absoluto desconforto e constrangimento do narrador. É obvio! Desde quando mandar alguém “calar a boca” é algo lisonjeiro?

O próprio “Cala boca, Magda” do humorístico era uma afirmação de brincadeira, mas era emitido sempre que a personagem falava alguma asneira. Era uma maneira bem humorada, sim, mas uma maneira de repreender.

Ou você manda sua mãe “calar a boca” como se fosse um “eu te amo”?

A repercussão e a veracidade da situação são tão grandes, que a revista de maior circulação do país – em plena época de Copa do Mundo, em plena época de eleições – parou para noticiar o assunto.

A matéria de capa da revista Veja - edição 2170, de 13 de junho de 2010 - de maneira nenhuma ataca, exagera ou altera os acontecimentos. Muito pelo contrário, reproduz fielmente e com sensatez.

Em síntese, a publicação da Editora Abril relata que a manifestação do indivíduo se torna cada vez mais possível e visível através da Internet. Juntando a isso seus desejos, anseios e até possíveis crueldades. E cita o caso do narrador como uma genuína manifestação popular.

A gravidade da situação torna-se ainda mais evidente e autêntica quando a revista Época, uma publicação da própria Globo faz também uma matéria, sem destaque, para desqualificar o significado da expressão “Cala boca, Galvão”.

A matéria assinada por Nelito Fernandes diz “Poucos minutos depois de a cerimônia de abertura da Copa do Mundo começar, a competição já tinha um vencedor: Galvão Bueno. O locutor da TV Globo foi o primeiro lugar entre os assuntos mais comentados no Twitter no mundo inteiro no dia da festa e, pelo menos até quinta-feira, não saía dos dez mais”.

Vencedor? Qual é a competição nesse caso? O que será que o Nelito tem como definição de “vencedor”? Uma pessoa que é ordenada a calar a boca agora é uma vencedora? E desde quanto é motivo de orgulho milhares de pessoas mandando você calar a boca?

Em outro trecho diz: “Com uma exposição tremenda no mundo dos esportes, é claro que Galvão não é unanimidade. Entre os espectadores, há os que o amam (a maioria, a julgar pela audiência e pelas pesquisas da TV Globo), há os que lhe são indiferentes, há os que o detestam e há os que amam odiá-lo”.

A julgar pela audiência? Em que aspecto? De um modo geral, os números de audiência da Globo mostram a emissora em acentuada queda, inclusive com a transmissão de esportivos. E como é possível medir “boa aceitação” se a Rede Globo detém praticamente TODOS os grandes eventos esportivos? Em que várias vezes ela compra e sequer transmite.

Qual é a possibilidade de escolha do telespectador nessa situação? Talvez não assistir? Bem, se for isso os números do Ibope mostram uma acentuada queda ano a ano da emissora carioca.

Pra não se prender ao acaso ou “achismo”, vamos a um caso pontual. Jogo do Brasil no dia 15, excepcionalmente feita pela Globo e pela Band. A Band alcançou ¼ da audiência da Rede Globo. A Rede Globo deu cerca de quarenta pontos, sendo que em Copas passadas tem uma média acima de cinquenta e cinco pontos. A Band deu cerca de dez pontos, sendo que no horário da exibição com sua programação normal geralmente dá dois.

De qualquer maneira, uma manifestação dessa magnitude não poderia apenas ouvida e de forma não presunçosa, de uma maneira humilde, servir para a emissora rever seus pontos negativos, e tentar melhorar?

Será que não há um conteúdo obvio mas não necessariamente agressivo nessa expressão? Será mesmo que a própria emissora caracterizar a manifestação de “brincadeira” e aumentar a “chacota” sobre a situação é a melhor atitude?

Penso, como anônimo que sou, que prefiro continuar anônimo e respeitado à mundialmente menosprezado e zombado.




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